Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
Fernando Pessoa
Publicado por Ofeliazinha em outubro 29, 2007 04:00 PMEu também não sei quantas almas tenho (se é que tenho...) mas o Fernando Pessoa sabe isso muitíssimo melhor que eu...
Beijinhos.
Não conhecia este, do Fernando Pessoa.
mas ele tem tantos...
Bom fim de semana.
Ca gandas malucos !!
2º post do charroco ...
Bom fim de semana .
Afixado por: Charroco em novembro 2, 2007 04:33 PMUm poema lindo...adorei.
Afixado por: Fernão em novembro 2, 2007 02:51 PMExcelente escolha.Poema lindissimo e com alma de poeta.Bjs.
Afixado por: agostinho em outubro 30, 2007 09:22 PMFernando Pessoa, sempre!
Excelente escolha.