Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
Para que comentar se as palavras que caracterizam este texto ja foram todas ditas?
Afixado por: Ana Cunha em setembro 26, 2007 09:55 AMSimplesmente Divinal!
É um dos poemas mais lindos que alguma vez se escreveu.
Boa esta seleção. Quem já não sentiu as suas palavras gastas! Boa semana.
Afixado por: Maria do Céu Costa em novembro 8, 2005 11:09 AMNa tristeza das palavras gastas há um encanto superior do Eugénio. Linda esta escolha tua. Gostaria de dizer que o poema que recebeste num comentário acima é maravilhoso. Obrigado querida amiga por deixares por lá as tuas palavras não gastas e sempre bem recebidas. Bjinhos, um doce sorriso e muita luz para a semana que entra
Afixado por: amita em novembro 6, 2005 08:29 PMÉ o que as palavras têm de excelente: usam-se, gastam-se, mas são 100% recicláveis e reutilizáveis.
Afixado por: Flávio em novembro 4, 2005 06:32 PMGosto de Eugénio de Andrade e principalmente deste poema...
Também já o publiquei nos principios do meu blog.
Beijokas e bom fim de semana*
Agora que já não há palavras, o tempo congela-se nesse momento de separação, quando dizemos adeus, ou até já. Não existem despedidas absolutas, "havemos de nos encontrar seja onde for, na rua, em casa, na morte ou no (além)". Bjo, gostei muito do poema (Eugénio é um deus da poesia)
Afixado por: (Eca) em novembro 4, 2005 06:55 AMJá gastamos as palavras, meu amor...
Tão verdade como crua é a vida.
Quantos momentos de palavras gastas, em que apenas nos sussurra o silêncio... como vã resposta.
Obrigado
Bjinho
Afixado por: Bufagato em novembro 4, 2005 12:14 AMLindo!E com esta música de fundo, faz crescer uma certa nostalgia das "danças ao luar".Esse Adeus de Eugénio de Andrade é fabuloso.Bem escolhido para o fim de semana que se avizinha. Beijinhos.
Afixado por: Agostinho em novembro 3, 2005 11:49 PMobrigado pela visita. adorei o blog é genial. parabéns.
posso colocar nos links?
Afixado por: eremita baptista em novembro 3, 2005 06:04 PMA mudança afecta sempre quem quer que seja. É inevitável o gastar de palavras. Gosto muito deste poema. Acredito que é assim. Beijinhos
Afixado por: Blueyes41 em novembro 3, 2005 05:50 PMO tempo passa e atravessa as avenidas,
o fruto cresce, pesa e enverga o velho pé,
o vento forte quebra as telhas e vidraças
e o livro sábio deixa em branco o que não é...
Pode não ser essa mulher o que te falta,
pode não ser esse calor o que faz mal,
pode não ser esse gravata o que sufoca
ou essa falta de dinheiro que é fatal...
Vê como um fogo brando funde um ferro duro,
vê como o asfalto é seu jardim se você crê
que há um sol nascente avermelhando o céu escuro
chamando os homens p'ro seu tempo de viver...
E que as crianças cantem livres sobre os muros
e ensinem aos que não sabem amar sem dor
e que o passado abra os presente no futuro
que não dormiu e preparou o amanhecer...
"Que as crianças cantem livres" - Taiguara
Afixado por: Ítalo em novembro 3, 2005 02:30 PMO tempo passa e atravessa as avenidas,
o fruto cresce, pesa e enverga o velho pé,
o vento forte quebra as telhas e vidraças
e o livro sábio deixa em branco o que não é...
Pode não ser essa mulher o que te falta,
pode não ser esse calor o que faz mal,
pode não ser esse gravata o que sufoca
ou essa falta de dinheiro que é fatal...
Vê como um fogo brando funde um ferro duro,
vê como o asfalto é seu jardim se você crê
que há um sol nascente avermelhando o céu escuro
chamando os homens p'ro seu tempo de viver...
E que as crianças cantem livres sobre os muros
e ensinem aos que não sabem amar sem dor
e que o passado abra os presente no futuro
que não dormiu e preparou o amanhecer...
"Que as crianças cantem livres" - Taiguara
Afixado por: Ítalo em novembro 3, 2005 02:30 PM